Resistir em tempos turbulentos

Uma pequena vila na costa norte de Moçambique está a tornar-se cada vez mais resiliente face aos ciclones que põem em risco o abastecimento de água e a saúde da população. Beneficiários, técnicos, autoridades e organizações locais colaboram com a Helvetas para garantir que os poços e as latrinas se mantenham estáveis, limpos e seguros.
BLOGARTICLE.BY: Madlaina Lippuner, Traduzido por Leonel Albuquerque - 28. agosto 2026

Testemunhos de pessoas locais

Analice Diogo, 28 anos, responsável pelo controlo do acesso a fontanária

«Às vezes, as crianças caíam no buraco profundo no chão, de onde antes íamos buscar água. Ficavam feridas ou até se afogavam. Com água suja, mal conseguia lavar-me, nem cozinhar, quanto mais manter-me saudável. A fontanária aqui melhorou tudo isso. Abro-a de manhã e fecho-a à noite. Não recebo dinheiro por isso. Ganho algum dinheiro com a venda de pãezinhos que faço em casa. Mas, como sei que isso me beneficia a mim e à comunidade, faço este serviço de chaveira da fontanária com todo o gosto.»

Ricardo Mendes, 48 anos, oficial do projecto na Helvetas Moçambique

«As alterações climáticas provocam tempestades mais frequentes e violentas. Por isso, treinamos artesãos locais para apoiarem a construção de latrinas e casas resilientes. Também sensibilizamos para perfurarem poços nos locais onde as medições geológicas indicam a presença permanente de água. Com bombas de água mais resistentes, evitamos que a água potável seja salinizada pela água do mar ou contaminada de outra forma. Aqui em Moma-Sede, a Helvetas apoiou a transformação de um poço artesanal num furo de água seguro convencional, com bomba manual e facilitou a construção de um segundo furo de água devidamente equipado. Sensibilizamos os residentes a constituírem comités de água e de emergência locais e trabalhamos com as autoridades do distrito para oferecer serviços de abastecimento de água fiáveis – mesmo em caso de crise.» 

Judite Candido Travessa, 29 anos, socorrista no Comité de Emergência local

«Estamos sempre atentos às comunicações de emergência via rádio. Quando se aproxima uma tempestade, sensibilizamos as pessoas de porta em porta e por vezes vamos mesmo até à praia falar com as as pessoas para que protejam. Muitos ainda vivem em casas simples de madeira, que não resistem aos ciclones. Alguns não percebem a gravidade da situação e querem ficar em casa. Se for preciso, evacuo-os eu próprio. Recebemos formação e equipamentos de rádio, bandeiras de sinalização e megafones das autoridades locais. Em colaboração com elas, identificámos locais seguros, como escolas para acolher as pessoas. Com o meu trabalho, posso salvar vidas, e adoro isso.»

Julião Atumane, 53 anos, presidente do primeiro comité de água

«Estamos organizados em comités de água responsáveis pela gestão de dois furos (de água) nesta zona. Eu cobro a todos os que retiram água dos poços. Por 20 meticais por mês, podem cartar água duas vezes por dia. Com esse montante, cobrimos os custos de manutenção e reparação dos poços. Antes, tirávamos água de um buraco profundo no solo. A água estava suja e, na época das chuvas, enchia de lama. Às vezes, havia animais mortos a flutuar nela. Estávamos frequentemente doentes. Com o furo de água devidamente equipado, estamos bem, quer chova, quer não.»

Jessica Gomes, 29 anos, colaboradora do SET Multiservice-parceiro do projecto WASH Resiliente

«Trabalho para uma organização parceira da Helvetas, vou de porta em porta e organizo reuniões com os residentes. Sensibilizamos as pessoas sobre as boas práticas relacionadas com a água e a higiene: lavar as mãos correctamente e evitar doenças como a cólera ou simplesmente a diarreia. Este conhecimento é particularmente importante em caso de ciclones, pois estes podem contaminar a água. Para tal, elaboramos planos de emergência em conjunto com as autoridades locais e os comités de emergência. E incentivamos as pessoas que não têm acesso a latrinas a construírem a sua própria casa de banho resistente a ciclones, em vez de fazerem as suas necessidades ao ar livre, na floresta ou no mar»

Norati Abudo Ali, 37 anos, presidente do segundo comité da água

«Desde 2025 que temos esta segunda fontanária, o que reduz o tempo de espera. As pessoas valorizam-me como mediadora. Se alguém se intromete na fila, eu intervenho. Gostaria muito de construir casas de banho para quem está na fila. Mas a construção e a manutenção têm custos. Não posso pedir mais dinheiro às pessoas para isso. Para alguns, a conta da água já é suficientemente cara.»

Nelson Saíde, 52 anos, vendedor de água

«Compro água potável aqui, porque na minha aldeia, situada a cerca de uma hora de distância, ainda não temos uma fontanária. Por essa razão, levo água daqui para vender na minha comunidade. O presidente do comité da água autorizou-me, pelo que posso ir buscar água mais vezes durante o dia do que os outros. Chego aqui na fontanária às cinco da manhã. Carrego os bidões de água na minha bicicleta. Apesar de velha e enferrujada, consigo levar 280 litros para a aldeia, todos os dias. Isso rende-me um bom dinheiro. O meu maior sonho? Uma casa nova. Vivemos numa casa velha e em mau estado, mas em breve a construção da nova casa poderá começar, graças a este negócio.»

Wasser

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