Quebrando barreiras com o GALS: a história de Abel e Sicuzane

REPORT.TEXT: Leonel Albuquerque - REPORT.PHOTOS: Leonel Albuquerque - 02. junho 2026

Uma realidade comum em Moçambique

Em Moçambique, as normas sociais e de género continuam a atribuir papéis distintos a homens e mulheres no seio das famílias. Enquanto os homens são, em geral, responsáveis pela geração de renda, às mulheres cabe a maior parte do trabalho doméstico e de cuidado, como cozinhar, lavar, buscar água e cuidar de crianças, doentes e idosos.

Esta divisão, ainda fortemente enraizada sobretudo nas zonas rurais, posiciona os homens como principais provedores e decisores do agregado familiar, levando-os a assumir actividades económicas e, muitas vezes, a migrar em busca de melhores oportunidades. Por outro lado, esta dinâmica limita o acesso das mulheres a oportunidades e direitos, contribuindo para desigualdades persistentes, incluindo maior vulnerabilidade económica e social nos agregados familiares chefiados por mulheres.

 

Quando tudo começou a mudar

No posto administrativo de Matchedje, distrito de Sanga, província de Niassa, um casal de jovens está a desafiar as normas tradicionais e a construir uma dinâmica mais igualitária. Abel e Sicuzane Hassane de 19 anos e 22 anos, respectivamente, são exemplo dessa mudança. Encontramos o casal na sua moageira comunitária, recentemente instalada sob um amplo alpendre improvisado, feito de pau a pique e coberto com lonas. Tal como muitos outros casais da região, quando decidiram viver juntos, em 2022, tinham já internalizadas as expectativas sociais sobre os papéis de cada um.

«Eu acordava e ia directamente para a minha loja. Às vezes, viajava até à Tanzânia para comprar mercadorias em falta. Noutras ocasiões, jogava futebol com os amigos.»

Abel Hassane

«Eu era responsável por tudo em casa: limpar, buscar água, preparar o pequeno-almoço, lavar roupa. Passava mais tempo a trabalhar do que ele.»

lembra Sicuzane

Construindo juntos um novo futuro

A mudança começou em Setembro de 2025, quando Abel participou numa formação sobre o Sistema de Aprendizagem de Acção de Género (GALS na sigla inglesa), promovido pelo projecto MozNorte Governação Comunitária de Chipanje Chetu, financiado pelo Banco Mundial através da Biofund e implementado por um consórcio liderado pela Helvetas. A experiência transformou a  percepção do jovem sobre os papéis de género e levou-o a adoptar práticas mais inclusivas dentro do lar. Desde então, o casal passou a partilhar tanto as tarefas domésticas quanto as decisões financeiras e  negócio.

«Além de ajudar em casa, o Abel passou a envolver-me nas decisões. A ideia da moageira, por exemplo, foi discutida entre nós. Eu concordei e apoiei com 10 mil meticais das minhas poupanças. O meu sogro [pai do Abel] também contribuiu, e assim conseguimos adquirir o necessário para começar.»

explicou Sicuzane

A escolha pelo negócio da moageira não foi feita ao acaso. Após uma análise do mercado local, Abel percebeu que a comunidade de II Congresso carecia de serviços de moagem, obrigando muitos residentes a deslocarem-se até à Tanzânia, a cerca de um quilómetro de distância, para processar cereais.

«Vimos nisso uma oportunidade de negócio e, ao mesmo tempo, uma forma de ajudar a comunidade.»

revelou Abel

O casal investiu cerca de 130 mil meticais na abertura da moageira, que entrou em funcionamento na segunda quinzena de abril deste ano. Agora, já traçam novos objetivos: a construção da sua própria casa. Para isso, adquiriram, em comum acordo, sete mil tijolos (blocos feitos localmente com lama) para construirem a sua residência. A tomada de decisões conjuntas tornou-se um princípio na vida do casal.

«Hoje, todas as decisões importantes são discutidas. Antes de emprestar 1.500 tijolos ao primo, por exemplo, o meu marido falou comigo, e eu concordei.»

contou Sicuzane

O GALS é uma ferramenta que ajuda mulheres e homens a analisar, planear e transformar as suas próprias vidas - teve um papel decisivo neste processo, promovendo igualdade de género, tomada de decisão partilhada e melhoria dos meios de subsistência.

A história de Abel e Sicuzane mostra que, mesmo em contextos marcados por tradições rígidas, é possível construir relações mais equilibradas e fortalecer o futuro das famílias através da mudança de atitudes e da colaboração.