Uma realidade comum em Moçambique
Em Moçambique, as normas sociais e de género continuam a atribuir papéis distintos a homens e mulheres no seio das famílias. Enquanto os homens são, em geral, responsáveis pela geração de renda, às mulheres cabe a maior parte do trabalho doméstico e de cuidado, como cozinhar, lavar, buscar água e cuidar de crianças, doentes e idosos.
Esta divisão, ainda fortemente enraizada sobretudo nas zonas rurais, posiciona os homens como principais provedores e decisores do agregado familiar, levando-os a assumir actividades económicas e, muitas vezes, a migrar em busca de melhores oportunidades. Por outro lado, esta dinâmica limita o acesso das mulheres a oportunidades e direitos, contribuindo para desigualdades persistentes, incluindo maior vulnerabilidade económica e social nos agregados familiares chefiados por mulheres.
Quando tudo começou a mudar
No posto administrativo de Matchedje, distrito de Sanga, província de Niassa, um casal de jovens está a desafiar as normas tradicionais e a construir uma dinâmica mais igualitária. Abel e Sicuzane Hassane de 19 anos e 22 anos, respectivamente, são exemplo dessa mudança. Encontramos o casal na sua moageira comunitária, recentemente instalada sob um amplo alpendre improvisado, feito de pau a pique e coberto com lonas. Tal como muitos outros casais da região, quando decidiram viver juntos, em 2022, tinham já internalizadas as expectativas sociais sobre os papéis de cada um.
Abel Hassane
lembra Sicuzane
Construindo juntos um novo futuro
A mudança começou em Setembro de 2025, quando Abel participou numa formação sobre o Sistema de Aprendizagem de Acção de Género (GALS na sigla inglesa), promovido pelo projecto MozNorte Governação Comunitária de Chipanje Chetu, financiado pelo Banco Mundial através da Biofund e implementado por um consórcio liderado pela Helvetas. A experiência transformou a percepção do jovem sobre os papéis de género e levou-o a adoptar práticas mais inclusivas dentro do lar. Desde então, o casal passou a partilhar tanto as tarefas domésticas quanto as decisões financeiras e negócio.
explicou Sicuzane
A escolha pelo negócio da moageira não foi feita ao acaso. Após uma análise do mercado local, Abel percebeu que a comunidade de II Congresso carecia de serviços de moagem, obrigando muitos residentes a deslocarem-se até à Tanzânia, a cerca de um quilómetro de distância, para processar cereais.
revelou Abel
O casal investiu cerca de 130 mil meticais na abertura da moageira, que entrou em funcionamento na segunda quinzena de abril deste ano. Agora, já traçam novos objetivos: a construção da sua própria casa. Para isso, adquiriram, em comum acordo, sete mil tijolos (blocos feitos localmente com lama) para construirem a sua residência. A tomada de decisões conjuntas tornou-se um princípio na vida do casal.
contou Sicuzane
O GALS é uma ferramenta que ajuda mulheres e homens a analisar, planear e transformar as suas próprias vidas - teve um papel decisivo neste processo, promovendo igualdade de género, tomada de decisão partilhada e melhoria dos meios de subsistência.
A história de Abel e Sicuzane mostra que, mesmo em contextos marcados por tradições rígidas, é possível construir relações mais equilibradas e fortalecer o futuro das famílias através da mudança de atitudes e da colaboração.
